quarta-feira, 21 de novembro de 2007

UM BRASIL X URUGUAI DIFERENTE - por Gustavo Cavalheiro

Hoje a noite no Estádio do Morumbi, teremos um jogo das Eliminatórias da Copa do Mundo de 2010 contra o Uruguai. Nosso feroz adversário de tempos atrás, nosso carrasco de 50, nosso sparring de 70. Uma das seleções que também está na História de um clube brasileiro.

No dia 7 de setembro de 1965, o Brasil parou e concentrou todas suas atenções para Belo Horizonte. Estava sendo inaugurado o Estádio Magalhães Pinto, o “Mineirão”. Obra corajosa, vanguardista, imponente, um dos melhores estádios de futebol do mundo, com capacidade para mais de 100 mil espectadores.


Para coroar os festejos da inauguração, organizou-se um amistoso entre a Seleção Brasileira e a do Uruguai e, pela primeira vez na história do futebol brasileiro, uma equipe de futebol, a Sociedade Esportiva Palmeiras, foi convidada para compor toda a delegação, do técnico (único estrangeiro a dirigir a seleção nacional) ao massagista, do goleiro ao ponta-esquerda, incluindo os reservas. Uma primazia única em reconhecimento à melhor equipe do País, que vencia a todos os adversários e convencia, encantava de tal maneira que recebeu da imprensa e do povo a alcunha de “Academia de Futebol”.


O Mineirão:
Nos anos 40, enquanto o futebol do Rio de Janeiro desfilava seus clássicos no charmoso estádio São Januário e São Paulo levava multidões ao imponente Pacaembu, Belo Horizonte possuía apenas estádios modestos que comportavam no máximo 10 mil torcedores, limitando o crescimento do esporte no Estado.

Quando o Brasil obteve da Fifa o direito de abrigar a Copa do Mundo de 1950, a capital mineira reivindicou uma das sedes e para abrigar as partidas a Prefeitura optou por ajudar a equipe do Sete de Setembro de Futebol e Regatas, um modesto clube de Belo Horizonte, que já havia iniciado obras para um grande estádio, projetado para 40 mil torcedores.

O cronograma das obras acabou atrasando e o projeto foi alterado para uma capacidade bem inferior. Ainda assim, o Estádio do Sete de Setembro foi inaugurado na véspera do torneio, recebendo o nome de Estádio Independência (hoje arrendado pelo América-MG).

A inauguração do Maracanã na Copa de 50 tornou ainda mais clara a necessidade de Belo Horizonte construir um estádio à altura de seu futebol e foram estudantes de engenharia da UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais que fizeram os primeiros esboços, mas para tirar o projeto do papel foi preciso quase uma década.

Em 12 de agosto de 1959, o governador do estado, José Francisco Bias Fortes, assinou lei determinando a construção do “Estádio Minas Gerais” e, seis meses depois, em 25 de fevereiro de 1960, foi assinado acordo com a UFMG para a cessão de área de 300 mil metros quadrados, sob a forma de comodato não-aprazado, para a construção do complexo esportivo. Projetado pelos arquitetos Eduardo Mendes Guimarães Júnior e Gaspar Garreto, o estádio teria capacidade para 130 mil pessoas, uma ousadia para uma cidade que contava com pouco mais de 600 mil habitantes.

Em 1962, Magalhães Pinto venceu as eleições estaduais contra Tancredo Neves e assim que assumiu mandou paralisar as obras do estádio. Parecia que o sonho dos estudantes da UFMG voltaria à estaca zero e assim ficou por mais de um ano, até que em 1963, Minas Gerais conquistou o título de campeão brasileiro de seleções estaduais, torneio que despertava grande atenção naquela época.

A conquista ajudou a ressuscitar a idéia do estádio e, restando um ano para as eleições estaduais, o governador Magalhães Pinto retomou as obras, determinando ainda a troca do nome do estádio para “Governador Magalhães Pinto”.


O jornalista Armando Nogueira quando visitou as obras profetizou: "Isto aqui é o ponto de partida para o campeonato nacional!

Trabalharam 7.200 operários na obra que consumiu quase cinco mil toneladas de aço, 91 toneladas de arame recozido, 27 mil metros cúbicos de areia lavada, 46 mil metros cúbicos de brita, dois mil metros cúbicos de cascalho, 350 mil sacos de cimento e 810 mil tijolos e, assim, dois anos após a retomada dos trabalhos, o estádio estava pronto, com seus 88 pórticos de concreto armado, dispostos radialmente em torno de uma elipse.

Inauguração:

A inauguração oficial foi programada para a Semana de Independência, tornando-se uma grande festa cívica, e a principal atração ficou por conta de dois jogos. No domingo, 5 de setembro, uma Seleção Mineira enfrentaria o River Plate, da Argentina, e na terça-feira, dia 7 de setembro, feriado nacional, a Seleção Brasileira jogaria pela primeira vez em sua história no Estado de Minas Gerais.
O adversário escolhido era a temida Seleção Uruguaia, algoz dos brasileiros na final do Mundial de 1950. Na véspera da inauguração, uma curiosidade: Felício Brandi, presidente do Cruzeiro, visitou o estádio e verificou o local onde o sol batia durante toda a tarde. Mandou então fazer mais de 600 bandeiras do Cruzeiro e colocar, no dia do jogo, no espaço onde havia sombra. Os torcedores atleticanos ao chegarem para o jogo evitaram o local e assim ficou marcado definitivamente o lado onde se sentaria a torcida do Cruzeiro.

No domingo, 5 de setembro de 1965, a prefeitura colocou 300 ônibus fazendo o transporte gratuito dos torcedores e mais de 70 mil compareceram para a festa. Teve desfile de bandas, pára-quedistas, esquadrilha da fumaça, discurso do governador, helicóptero trazendo a bola do jogo e até o campeão Bellini dando volta no campo conduzindo uma tocha olímpica. Mesmo sem mostrar muito entrosamento, a Seleção Mineira venceu o River por 1 x 0, gol de Bouglaeux, jogador do Atlético-MG na época, aos 2 minutos do 2º tempo.

A festa foi muito bonita, mas o melhor estava por vir: a Seleção Brasileira, que se apresentaria pela primeira vez em Minas Gerais, para enfrentar a poderosa Seleção do Uruguai. A CBD, entretanto, ficou com receio de mandar a campo uma seleção desentrosada e, pela falta de tempo para organizá-la, preferiu convidar – pela primeira vez em sua história – uma equipe completa para representá-la e esta escolha recaiu sobre a Sociedade Esportiva Palmeiras, uma honra e uma responsabilidade sem precedentes. Na década de 60, a Academia teve rivais como o Santos de Pelé e o Botafogo de Garrincha, mas naquele momento era, sem dúvida, a melhor equipe do País e, por isso, a CBD fez a escolha.

A CBD somente voltou a conceder esta honra a uma equipe em duas oportunidades novamente: em vista do sucesso do Palmeiras nesta tarde, dois meses depois, em novembro do mesmo ano, a CBD tentou o mesmo recurso e convidou o Corinthians para representá-la, desta vez não contra uma seleção, mas um time, o Arsenal. Porém, o Corinthians (Seleção Brasileira) acabou perdendo a partida por 2 x 0.

Em 68, o Atlético-MG teve a última oportunidade e venceu a Iugoslávia, no Mineirão, por 3 x 2. Nunca mais houve convite oficial.


Obs.: Há ainda outras duas ocasiões erroneamente identificadas como tendo sido um clube representando a Seleção, mas na verdade não foi isso que aconteceu. Em 1968, no jogo Brasil 4 x 1 Argentina, no Maracanã, alguns dizem que o Botafogo (RJ) representou a Seleção, mas na realidade o time contou também com Félix, do Fluminense, Brito, Nado e Ney, do Vasco, e Murilo, do Flamengo. Nas Olimpíadas de 1984, em Los Angeles, alguns dizem que o Internacional (RS) representou a Seleção, mas, na realidade, contou também com Ronaldo, do Corinthians, Gilmar Popoca, do Flamengo, Chicão, da Ponte Preta, e Davi, do Santos.


Brasil (Palmeiras) x Uruguai

O Uruguai acabava de obter a classificação para o Mundial de 66 de forma invicta e apresentava craques como Manicera (que depois desfilou sua técnica no Flamengo), Cincunegui (que faria história no Atlético-MG), além de Varela, Douksas, Esparrago...

O Palmeiras vinha de sucessivas vitórias e acumulando uma invencibilidade de 11 jogos. A equipe estava completa e em plena forma, mas na última hora o craque mais experiente, Julinho, sentiu uma contusão e chegou a pedir para o técnico Filpo Nunes deixá-lo em São Paulo.

Filpo implorou para Julinho viajar com a equipe, mas preparou Germano para substituir o grande craque. Germano era um ponteiro revelado pelo Flamengo, que foi jogar na Itália e França e havia sido repatriado pelo Palmeiras. Já no vestiário, Julinho, ao perceber a importância daquele momento, com o estádio lotado, o Palmeiras representando a Seleção, não permitiu que Filpo escalasse Germano e informou ao treinador que jogaria aquela partida nem que fosse com uma perna só.

O Palmeiras entrou em campo com Valdir Joaquim de Moraes no gol, Djalma Santos (que completaria 92 jogos pela Seleção justamente nesta partida) na lateral direita, Djalma Dias e Waldemar Carabina compondo a zaga e Ferrari na lateral esquerda (no lugar do titular Geraldo Scotto). O meio-campo com Dudu e Ademir, municiando Julinho pela direita, Rinaldo pela esquerda e Tupãzinho e Servilio no ataque. No banco, Picasso, Procópio, Santo, Zequinha, Germano, Ademar Pantera, Dario e Gildo. Uma legítima Seleção Brasileira!

Waldemar Carabina foi designado o capitão do time para esta partida. No banco, Don Filpo Nunes, o “bandoleon”, argentino de nascimento e palmeirense e paulistano por opção, tornar-se-ia naquela tarde o único treinador estrangeiro a dirigir a Seleção Brasileira. Uma honra que ele soube valorizar, respeitar e reconhecer até o fim de sua vida.

O Jogo

Desde o começo, a Seleção Brasileira se mostrou superior. Aos 2 minutos, Servílio, de cabeça, quase abriu o placar. Aos 6, Rinaldo avançou e chutou com força rente ao gol do Uruguai. Aos 10, Tupãzinho e Servilio fizeram linda tabela, mas foi somente aos 27 minutos que, num ataque do craque Julinho, este driblou o marcador, avançou e cruzou para a área, mas o zagueiro Cincunegui cortou o cruzamento com o braço, cometendo pênalti. Rinaldo, o batedor oficial, foi lá e fez 1 x 0 para o Brasil.

Pouco depois, aos 30 minutos, houve novo pênalti de Cincunegui, desta vez sobre Rinaldo, que entrava com tudo pela esquerda e foi derrubado, mas o juiz não assinalou. Aos 34, o mesmo Rinaldo desceu pela esquerda e cruzou rasteiro, Tupãzinho dividiu com o zagueiro e na sobra encheu o pé sem chances para Taibo, 2 x 0, e o Mineirão inteiro aplaudia e se encantava com a Academia.

No final do primeiro tempo, Ademir da Guia também foi derrubado dentro da área em novo pênalti não marcado pelo árbitro. No intervalo, o Brasil/Palmeiras fez as alterações previstas: Picasso no lugar de Valdir; Procópio no de Waldemar Carabina; Zequinha no de Dudu; Germano no de Julinho; e Ademar Pantera no de Tupãzinho.

Mesmo com cinco substituições, o time voltou tão forte quanto na primeira etapa e continuou dominando a partida e aos 18 minutos, Dario entrou no lugar de Rinaldo e, após muitas chances perdidas, aos 29 minutos, Germano marcou um golaço, para alegria da torcida brasileira.

Ficha Técnica

BRASIL (PALMEIRAS) 3 x 0 URUGUAI

Brasil [Palmeiras]: Valdir de Moraes (Picasso); Djalma Santos, Djalma Dias e Ferrari; Dudu (Zequinha) e Valdemar (Procópio); Julinho (Germano), Servílio, Tupãzinho (Ademar Pantera), Ademir da Guia e Rinaldo (Dario).

Uruguai: Taibo (Fogni); Cincunegui (Brito), Manciera e Caetano; Nuñes (Lorda) e Varela; Franco, Silva (Vingile), Salva, Dorksas e Espárrago (Morales).

Árbitro: Eunápio de Queiroz

Data: 07/09/65 Local: Estádio Magalhães Pinto, em Belo Horizonte (MG)

Público: aproximadamente 80.000 pagantes Renda: Cr$ 49.163.125,00

Gols: Rinaldo, aos 27, e Tupãzinho, aos 35 minutos do primeiro tempo. Germano, aos 29 da etapa final.

Obs.: Havia uma taça em disputa, mas ao final da partida o Palmeiras, entendendo que o troféu pertencia de direito à CBD, pois estava apenas representando-a, deixou o mesmo com a Comissão Organizadora e retornou à São Paulo. Vinte e três anos depois, em 1988, descobriu-se que o troféu continuava no Mineirão, pois a CBD também não havia requisitado o troféu e assim ficou decidido pelas partes que o Palmeiras deveria honrosamente ficar com o mesmo e que hoje está exposto na Sala de Troféus da Sociedade Esportiva Palmeiras.

Fontes: http://www.gazetaesportiva.net/; http://www.palestrinos.com.br/; http://www.palmeiras.com.br/; http://www.terra.com.br/; http://www.rsssf.com/; http://www.futeboltotal.com/; www.miltonneves.com.br