sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

I BELONG TO JESUS - por Gustavo Cavalheiro

O Artigo 5º da Constituição Federal diz:
Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;

Kaká exerceu essa liberdade de cultuar seu Deus no Japão na final do Mundial de Clubes, contra os argentinos do Boca Jrs, quando ele, Ele e seus companheiros de Milan massacraram os portenhos.

Nas férias, Kaká, então o melhor do mundo, foi de livre vontade e intenção oferecer ao seus irmãos de fé a taça de melhor jogador do mundo, como retribuição às palavras de seu pastor (recém-liberto dos EUA por aportar com dinheiro além da cota, escondido em uma Bíblia), que profetizou o ano positivo de Kaká profissionalmente e pessoalmente com a vinda de um esperado herdeiro.

Este fato independentemente de sua fé, credo ou qualquer compreensão do mundo e o etéreo traz a pauta algo maior. Não é O poderoso em pessoa, mas a utilização da fé no esporte e vice-versa.

Kaká, pelas normas da Fifa, não poderia ter mostrado a inscrição “I BELONG TO JESUS” (Eu pertenço a Jesus). A Fifa proíbe o exercício de qualquer expressão religiosa ou política em seus jogos. Este fato posto, cabe a Fifa repreendê-lo e na reincidência, puni-lo.

O esporte é rico em casos de atletas que misturam a fé e o jogo. No futebol podemos focar no craque Romário que ao perder gols se notabilizou por fazer o sinal da cruz e em Marcelinho Carioca. Será que ele ainda reza antes de bater uma falta nos jogos do Santo André? Estes fatos deveriam ser repreendidos pela norma Fifa nua e crua, mas ninguém fala nada.

Fora qualquer garoto da Copinha São Paulo que sai falando pra imprensa que “... se Deus quiser: ele entrará, fará 4 gols do Pixirica do Norte, se firmará no adulto e quem sabe realizar o sonho de jogar no Uzbequistão.”

A liberdade de acreditar que Deus vai parar seus afazeres diários de monitoramento anti-guerra no Oriente Médio, de cuidado contra fome na África ou Agreste e mover uma bola de futebol pra gaveta, longe do alcance do herege goleiro, faz parte da nossa cultura futebolística.

É lúdico ver jogadores comemorando seus tentos beijando alianças, embalando bebês imaginários e fazendo sinais pros céu, como num agradecimento ao Cara por ter feito a tabelinha celeste perfeita e bem ensaiada. Imagine se todos nós entrássemos nessa de agradecer a Deus, nossas esposas ou filhos pelas metas obtidas.
Saiu uma promoção pra gerência e ele sai correndo pelas báias beijando a aliança e desliza pelo carpete azul da empresa de joelhos como um Neto de 1990. Ou ao fechar mais um contrato o colega do DP Comercial sai pulando com o polegar na boca em homenagem ao seu filho vindouro como um Robinho. Imagine a coordenadora de RH saindo da sala e esfregando seus ombros ela: tira a uruca ao demitir um empregado. Não tem o menor cabimento, mas no esporte é válido.

O que não vale, é se confundir a ponto de prejudicar sua saúde ao exercer a profissão esportiva e sua fé ao mesmo tempo. Lembram de Hakeen Olajuwon, o pivô nigeriano do Houston Rockets da NBA, que sempre chegava com tudo na temporada regular, mas falhava nos play-offs por respeitar o jejum no período do Ramadã Islâmico e chegou a quase desmaiar em quadra em muitos jogos.

Outra coisa extremada e estranhíssima é misturar esporte com fé e cultuar um atleta como Deus, ou melhor D10s. A Igreja Maradoniana é um misto de crítica social-religiosa, fanatismo esportivo e debilidade mental que comemora um Natal Maradoniano no dia 30 de outubro (nascimento do pibe). E pensar que isso saiu de uma frase que explicou o gol irregular mais famoso das Copas. "La mano de Dios" contra a Inglaterra em 1986 foi o milagre capital pros maradonianos acreditarem que Dios es D10s.
Não sou supersticioso, nem fanático, mas por via das dúvidas resolvi escrever esse texto com meus dedos cruzados, um trevo no mouse, um galho de arruda na orelha e bati no enter 3 vezes e falei: - Saravá Misefí!!!