quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

CONTRATAÇÃO DE PESO - por Gustavo Cavalheiro

Acho que temos de respeitar as pessoas quando, primeiro, elas se respeitam. Neste ponto, o atleta de futebol Ronaldo, Fenômeno, não sabe nem de perto o que significa a preservação de imagem e auto-estima.

Ao contrário de muita opinião politicamente correta sobre o assunto, vou falar o que eu acho.
Herói mundial entre o fim dos anos 90 e o início dos anos 2000, ele encarnou a superação e perseverança ao combater a descrença geral e a todos que decretaram seu, precoce, final profissional. O famoso Ronaldo de 2002 apagou a imagem medrosa de um jovem que foi testado e refugou em uma final (98), mas em 2006, ele estava novamente em condições de mostrar que 1998 era a sua "exceção da regra", mas não foi!

Nitidamente muito acima do peso, a ponto de não conseguir calçar suas chuteiras personalizadas, Ronaldo provou que era um jovem rico, sem perspectivas e sem nenhuma ambição no esporte. Afinal de contas, emagrecer para uma Copa era a necessidade, enquanto não estar gordo era a obrigação do profissional. Ele passeou em campo e mesmo marcando seu gol, passou muito longe de ser o Ronaldo de 2002. Confirmando que 2002 era a exceção e não o contrário. O triste padrão do sistema, era ver ele falhar por si próprio.

Desde então, esse arremedo de 2002 perambula pra lá e pra cá em franca decadência, até o simpático convite para jogar no Milan. Pensam que ele se preparou e emagreceu, ou mesmo evitou engordar? Não! Ficou na mesma, afinal ele é uma estrela e os clubes devem se adaptar aos seus caprichos. Não fez mais que 20 partidas na Itália provando que ele sabe jogar, indiscutível que sabe e sabe muito. Mas ele quer? Quando ele quer?

Infelizmente ele se machucou com a mesma gravidade de 2000, agora no outro joelho, em fevereiro deste ano em um jogo contra o Livorno. Você acha que ele ficou se preparando e investindo em seu corpo e carreira? Não, preferiu passear de barco pela Europa exibindo seu corpo cada vez mais roliço e participando de confusões, como o famoso incidente com os transexuais pelo Rio de Janeiro, enquanto recém engravidava sua nova quase ex-namorada/esposa. Suas atuações começaram a ser marcadas e computadas por linhas e colunas de revistas, tablóides e não mais gols. De escândalo em escândalo, o jogador fenomenal se transformou em uma Britney ou Paris da bola.
Um atleta que tem problemas de joelho, deveria no mínimo se manter em forma, mesmo sem fazer corridas. Nutricionistas e preparadores físicos pessoais deveriam custar menos que damas (ou senhores) da noite, para quem tem prioridade na vida e sabe o que faz pra viver.

Após quatro meses de namoro com o Flamengo, ele acerta um contrato com o Corinthians para uma temporada. Uma ação em um mix de marketing esportivo, marketing político do Andrés e devaneio-produtivo do Chico Lang há alguns meses. Como ação de marketing, é claro que a "Bunyodkorzada" ou "LA Galaxyada" será e já é um enorme sucesso, mas o que preocupa é a cobrança sobre o "Ronaldo Nazário x o jogador fenomenal de 2002".

Este cara de 2002, está extinto, tão extinto quanto os camisas 9 do futebol nacional. Ronaldo de 2002 foi o último 9 a desfilar a camisa com maestria. É seguro que todos prefiram ter um Ronaldo no elenco que um Enílton e até um Obina da vida (outro exemplo de "atleta"), mas cobrar deste cara que chega com pompa e circunstância, que o seu nome criou há mais 10 anos, um futebol parecido com aquele, é uma covardia que beira a maldade. Numa pelada na tarde de hoje, escolho Romário com 43 anos e 1 ano de aposentadoria pro meu ataque.

A virtude da paciência de todos será posta em prática, mas sempre teremos aqueles comentários que "este Ronaldo" não pode ser um Zé das Couves com grife, ele tem de ser o Ronaldo, aquele... o fenomenal de 2002, sem mais nem menos. Aquele! Mas será que ele quer ser aquele?

E o ponto é este! Os últimos casos de atletas que se dispuseram a "vestir a camisa" aos quais cito, Romário, Edmundo, Marcelinho, Adriano... tinham estrutura corporal e condição para exercer sua profissão em campo. Mesmo que a cabeça seja muito mais rápida que o corpo, eles tinham o mínimo de corpo para ajudar e isso o Nazário não tem. Não duvido que ele vai emagrecer, mas será o bastante para botá-lo em jogo da forma que esperam? Operar joelho não é operar amídala.

Para o jogador Ronaldo, esse oba-oba criado, pode atrapalhar sua condição de treinamento e escalação. Vide a declaração de seu novo técnico Mano Menezes na ESPN-br, quando perguntado sobre Ronaldo em novembro, em que disse que além da condição de marketing, tem a condição de campo, deixando clara a sua opinião sobre o status atual de ex-atleta. Caio Jr, que acompanhou seu desenvolvimento no Flamengo nesses meses, disse que Ronaldo precisa de MESES para obter uma forma de jogo. Será que a empresa R9 e a mídia vão tolerar essa provável "demora"?

Pro bem do futebol ele está presente e mudou muita coisa na capital bandeirante, mas para o bem do Corinthians, não contem e principalmente não dependam dele até ele se colocar em forma, principalmente em condições psicológicas e com total disposição de ao menos querer jogar bola.

Para ele, deixo minha torcida de um bom retorno, a esperança de que ele entenda que é sua grande chance de voltar a ser um atleta e de retomar o respeito de todos com seu dom.
Destaco dois pedaços da música do Rappa – Pescador de Ilusões:
Se meus joelhos não doessem mais, diante de um bom motivo que me traga fé...

E o mais importante desta música é ele não esquecer que:
Ainda sim estarei pronto pra comemorar se eu me tornar menos faminto e curioso.


Curiosamente encerro com a pergunta: o que fisgará este pescador de gols, bons motivos ou ilusões? Dê a sua opinião.
fotomontagem: Caio Senra