quinta-feira, 1 de outubro de 2009

2016 - por Gustavo Cavalheiro


Ao contrário do que mandaria o bom senso, estou escrevendo este texto poucas horas antes da escolha da cidade dos jogos olímpicos de 2016, que será anunciada pelo COI em Copenhague – Dinamarca, nesta sexta-feira às 13h de Brasília.

Provavelmente, você, que está lendo o texto, já saiba o resultado e espero que você compreenda a minha intenção em não muretar.

Vamos por partes: gostaria de expor de saída minha indiferença à sede Rio 2016. Já fiz algumas matérias aqui no EA! sobre o tema e expus as condições de cada cidade pré-candidata 15/jan/2008 , depois palpitei após os dados do primeiro relatório do COI , evitei comentar o oba-oba do quádruplo empate no último relatório do COI em 2009, por entender que ali existiu uma condição de desigualdade, em que Tóquio e Madrid foram escanteiadas e as grandes perdedoras quando “empataram” com as enormes deficiências técnicas carioca de de Chicago.

É evidente que a crise da bolha da bolsa e do crédito no fim de 2008 teve um papel fundamental nessa mudança de panorama do primeiro para o segundo relatório do COI.

Mais que evidente é que a eleição de uma cidade como sede de olimpíada deixa de ser meramente técnica e vira um pleito de imagem nacional, poderio político no mundo cada vez mais globalizado. Foi assim na guerra fria (LosAngeles , Moscou), foi assim na segunda guerra mundial (Berlim), foi assim com Seul como o grande tigre asiático e foi assim com a China, menina dos olhos do capitalismo globalizado.

Quando se joga a diferença de infraestrutura, o legado esportivo no lixo e se analisa maquetes 3d de mundos maravilhosos e fabulosos, deixa-se o certo pelo incerto e se acredita no que o coração interpreta, sem ponderar com a cabeça.

E com essas armas, Obama escalou a Hebe Camargo afrodescendente Oprah Whinfrey, Pat Ewing, sua esposa Michelle e o mito Michael Jordan na comitiva de Chicago, para vender ao mundo, que os jogos olímpicos de Chicago não tem nada que ver com os outros 4 jogos em solo americano (St.Louis, L.A. 2x e Atlanta). Chicago 2016 será os jogos da cidade negra, os jogos afrodescendentes, o jogos do YES, WE CAN!

Pena que a cidade escolhida não tenha sido a pequena Nova Orleans que merecia um megainvestimento de reconstrução pós-Katrina.

Aqui, o menino Nuzman conseguiu emplacar o apoio institucional do “Garoto-propaganda da nova geração de político emergente Inácio da Silva”, governador e prefeitos do Rio com uma vontade de saírem na foto da conquista sem se preocuparem de verdade com as consequências disso e o Rei Pelé, que convenhamos é só um Zap pra cobrir o Copas americano, chamado Air Jordan (que pelo que dizem ficou coberto no monte e nem foi pra mesa).

Politicamente é uma ótima pro Brasil, imagéticamente é sensacional para o Brasil ter o Rio 2016, esportivamente é frustante e falando como cidadão, é ridículo termos uma olimpíada.

Mas é isso aí, nem cavamos o pré-sal e já discutimos como gastar a grana dele, nem acabamos com a dengue e malária mas ficamos com planos de cadeira de segurança na ONU, nem temos imprensa realmente esportiva, mas queremos sediar o encontro de uma Era dos esportistas mais importantes do mundo, nem temos segurança para os nossos e vendemos uma cidade sitiada pelo exército como na Eco-Rio como a solução da maquiagem temporária que os nossos futuros visitantes precisam.

Das 10 maiores economias do mundo, só o Brasil nunca sediou uma Olimpíada. A América do Sul também não e é fato que somente no Rio de Janeiro os jogos fariam diferença na História da cidade, pois as outras cidades teríam de se adaptar ao evento, enquanto no Rio, ou melhor na Barra da Tijuca, ainda falta muita estrutura que poderia ser criada em função dos jogos e deixada para a cidade. (E o saudoso autódromo já era nessa brincadeira!)

Tenho certeza que se não passar 2016, Nuzman lança Rio2020 no minuto seguinte! E isso me preocupa, pois no lado esportivo, gostaria de ver esse dinheiro investido em trabalhos sérios de desenvolvimento da matriz biológica nacional na implantação de TODOS os esportes de norte a sul. Não quero ver peneira no Acre pra lateral-direito do Flamengo, mas para o esporte correto para o biótipo dos acreanos, para o esporte que possa incluir o garoto no esporte de alto rendimento, idem Roraima, Rio Grande do Norte, Sul, e o de Janeiro, enfim, todo país.

Chega da monocultura do futebol na mídia, abram licenças para que os outros transmitam mais Esporte (com E maiúsculo) para o povo. Pague espaço na mídia aberta para os jogos colegiais, jogos universitários. Que o COB crie os jogos nacionais com estados duelando e servindo de base paras seleções permanentes de alto nivel. Tragam os melhores técnicos de cada modalidade, ou seja, usem esses 14 bilhões de dolares conosco, não com propaganda do país do pré-sal.

Crie um projeto eficiente para ganhar 20 medalhas por olimpíada, passe a França, Espanha, Itália, Canadá, Cuba no quadro de medalhas. Pague bem aos nossos ex-campeoes e treinadores dos campeões para que virem espelho dos mais novos. Não me deixe escrever um rescaldo olímpico como em Pequim!

Acho que podemos fazer uma Olimpíada sim, mas pra quê? Pra se contentar com o oitavo lugar na natação ou uma semifinal no atletismo? Vamos contratar o buffet mais caro do planeta pra fazer a festa de aniversário , casamento e bodas de ouro dos outros?

Tecnicamente a melhor sede seria Tóquio, mas essa deve ficar em terceiro. Madrid vai cair na primeira rodada pela proximidade com Londres; Chicago e Rio ficam no voto a voto, graças a chegada do Obama. Se o Rio ganhar com mais de 10 votos de Chicago, eu começo a acreditar em Obama e achar que o Lula é o cara!