domingo, 20 de janeiro de 2008

Entortando a vida – por Domenico Minervino

E Deus disse: “Que se faça a luz” e ela foi feita, conforme a Sua vontade. E deve ter dito também: “Que se faça o belo” e aí, nesse exato momento, surgiu Garrincha, nem mais nem menos, somente Garrincha e Ele viu que aquilo era bom.

A “Balada número sete” ainda ressoa na voz de Moacir Franco e a pergunta inserida na música chega até os nossos corações: “Cadê você, cadê você”. A saudade se faz forte. A saudade boquiaberta de Carlos Drummond de Andrade que também é nossa: “Tenho razão de sentir saudade, tenho razão de te acusar. Houve um pacto implícito que rompeste e sem despedires foste embora. Detonaste o pacto. Detonaste a vida geral”. E lá se vão vinte e cinco anos, completados hoje, sem Garrincha, sem Manoel dos Santos, sem Mané.

Sim, Mané, tão simples quanto um drible dado no vento, cortando a lateral, desalinhando a linha de fundo, entortando a vida. Em suas pernas arqueadas para dentro, estavam os desígnios do Todo Poderoso. Claro, assim foi dado o exemplo. Deve ter pensado: “Eu entorto primeiro a ti Mané, para que depois entortes aos outros sem remorsos, começando pela Física”.

Deixamos de ser cachorros surrados, como dizia Nelson Rodrigues, pelos teus pés. Passamos a conhecer o que era orgulho de ser brasileiro também por eles. E a sorrir. Ah! Como era bom! Um Maracanã ‘espanhol’ com ares do sul gritando olé, olé, mais e mais, olé. O som continua lá ecoando pelo cimento armado, repleto de lembranças, repleto de suor e alegria do povo.

E nunca foi preciso dar a ele a alcunha de rei, proclamado, entronado. Aos deuses não se é necessário coroa, ornamento ou comparação. Basta a glória e o reconhecimento. Justamente são as comparações as primeiras a cair por terra nesse tipo de embate. Muitos dizem: “Se fosse hoje...”. Pois se fosse hoje seria igual, seria melhor, seria até mais fácil.

Anjo, Garrincha morreu cedo demais. Mas para algo ser inesquecível deve ser arrancado abruptamente de nossa presença, deixando-nos um gostinho de ‘quero mais’, uma sensação de indignação, de imbecilidade, de ‘bateram a minha carteira e agora?’. É quando passamos a não ter o que tínhamos que percebemos o que perdemos. E assim se constroem os mártires, os heróis.

Hoje, façamos o seguinte. Vamos ao Maracanã, sentemo-nos no nosso lugar preferido e miremos a linha do horizonte do gramado. Colemos o radinho de pilha no ouvido ao som de Chico Buarque: “Para Mané para Didi para Mané Mané para Didi para Mané para Didi para Pagão para Pelé”. O resto é saudade.


* Domenico Minervino é jornalista, paulistano do Ipiranga, rubro-negro e um grande amigo da equipe do Esporte Acontece/Gigolaço. 20 de janeiro de 2008 são 25 anos sem Mané... silêncio no Maracanã e povo triste pelo mundo.