segunda-feira, 26 de novembro de 2007

ESPORTE ACONTECE! ENTREVISTA: por Gustavo Cavalheiro

Marcelo Soares é um brasileiro comum, com uma particularidade destacada e muito louvável: a persistência. Obstinado, ele trabalha incansavelmente há quase 10 anos, para difundir um esporte diferente no país da monocultura futebolística: o Corfebol.

O Corfebol, que tem o seu nome graças a palavra holandesa Korf (cesta), é um esporte centenário (1902), reconhecido pelo Comitê Olímpico Internacional (participou das Olimpíadas 1920 e 1928), possui uma Federação Internacional (IFK), desde 1903, hoje possui 56 países filiados, campeonatos com ginásios lotados (mais de 30.000 espectadores de média) e é praticado principalmente na Europa (Holanda e Bélgica).

A equipe do Esporte Acontece! entrevistou o Presidente da Associação Brasileira de Corfebol, o Professor Marcelo Soares e conta agora um pouco mais da dificuldade em implantar um novo esporte no Brasil e da luta desde destemido batalhador do esporte.

EA!: Como o você descobriu o Corfebol?
Profº Marcelo: Trabalho na prática tem 7 anos mas conheci o corfebol em 1998, na universidade Castelo Branco - Rio de Janeiro, como um jogo recreativo, pouquíssimos professores por lá conheciam e até mesmo o professor que me ensinou o esporte pouco sabia. Aceitei o desafio e hj sou o representante do esporte na América do Sul.

EA!: Como você definiria o principal diferencial e o ponto positivo do seu esporte, frente aos já conhecidos Basquete e Handebol?
Profº Marcelo: O diferencial é ser um esporte obrigatoriamente misto, enquanto os demais esportes separam masculino do feminino o Corfebol faz a união dos 2 sexos. Outra vantagem do Corfebol e ensinar a se posicionar corretamente dentro da quadra (desenvolve a percepção espacial) e a "marcar" corretamente, já que o contato físico não é permitido.

EA! : Como é a aceitação das crianças a um esporte novo?
Profº Marcelo: A criançada adora novidades... tendo didática e aprendendo a filosofia do Corfebol que eu ensino em cursos e palestras, não tem como a criançada não gostar da modalidade. Aceitação total, por onde eu passo transformo o Corfebol no segundo esporte de preferência, perdendo apenas para o futebol.
Quando comecei a trabalhar com a modalidade, iniciei por comunidades carentes, diminuindo a agressividade tão natural, fazendo a integração de meninos e meninas rapidamente.
EA!: Até que ponto você acredita que a união do Corfebol favoreceu o desenvolvimento dessas crianças carentes?
Profº Marcelo:
Na minha opinião, o Corfebol ensinou a desenvolver o espirito de equipe, ao trabalho em grupo, e a cidadania de uma forma geral, mostrou aos meninos e meninas que ambos podem estar na mesma equipe, respeitando suas diferenças biológicas. E o fundamental foi fazer amizade através do esporte e para minha surpresa casais de namorados na faixa etária adolescente. Surpresa total !!!
EA!: Onde você já conseguiu "levar a chama" do Corfebol aqui no Brasil?
Profº Marcelo:
Divulgar uma modalidade nova no país do futebol e do volei, não é muito fácil, sempre gostei de desafios em minha vida... para que o Corfebol se desenvolvesse, precisei de mídia, entao algumas portas se abriram, outras se fecharam... mas faz parte. O esporte está chegando aos poucos em Minas, São Paulo e por incrivel que pareça em Rondônia... através de nossa representante a Professora Valdirene Guimarães.
EA!: Nesse exato momento, como está o Corfebol no Brasil?
Profº Marcelo: Precisamos de patrocínio para custear as despesas de transporte, materiais viagens etc. Temos a seleção brasileira, que está parada no momento. Estamos vendo novo local de treinamento no Rio de Janeiro.
EA!: Por que o Brasil não esteve com uma equipe no Mundial deste ano?
Profº Marcelo: Por falta de patrocínio para passagens aéreas, com isso tivemos que entregar a vaga de graça aos americanos que tomaram "sufoco" no mundial, ficando em 13º lugar. Meu objetivo agora é ter condições até 2011 para podermos participar do primeiro mundial que será realizado na China.

EA!: Quais são os principais países no Corfebol mundial?
Profº Marcelo:
Holanda, Belgica, Republica Tcheca, Portugal, China Taipei, Austrália, Alemanha, Inglaterra, Rússia.

EA!: Você tem algum apoio de empresas holandesas, ou do governo holandês? Chegou a tentar esses contatos?
Profº Marcelo: Fiz alguns contatos superficiais, mas precisamos de algum programa de tv como Jô Soares ou Malhação, por exemplo, para que o esporte fique mais conhecido. Temos uma boa relação com consulado holandês.

EA!: Quais são as principais dificuldades que você enfrenta em implantar o Corfebol no Brasil?
Profº Marcelo:
Falta de apoio, mídia... patrocínio. e morar no Rio de Janeiro onde tudo é mais dificil infelizmente, acredito que se eu fosse de outro estado brasileiro com a determinação que tenho, o Corfebol estaria mais adiantado. Outra é a desinformação sobre o esporte no Brasil, a maioria dos colegas professores de educação física nunca ouviram falar do esporte, pensam que é uma invenção minha. Acham que ensinar Corfebol é aprender as regras somente, sem aprender a filosofia do jogo. Sem a filosofia o Corfebol não consegue ser assimilado.
(foto: Professor Marcelo Soares e Patricia Broers-Lehmann no Consulado da Holanda no Rio de Janeiro)

EA!: A mídia tem sido receptiva?
Profº Marcelo: Não tenho o que reclamar da mídia... em menos de 10 anos consegui chegar até na Ana Maria Braga, basta ver os vídeos no site youtube.com e ver a mídia dando apoio ao trabalho. Só tenho agradecer a todas emissoras e reportéres que realizaram matéria sobre o Corfebol, não esquecerei nunca...

EA!: Você sofre muito preconceito na divulgação do esporte? Que tipos de coisas você tem encontrado?
Profº Marcelo:
Preconceito sempre se encontra, procuro não dar muita atenção, aliás me motiva, numa carreira sempre existirão "pedras no caminho", confio muito no meu potencial, em Deus e na força do Corfebol. Não irei desistir jamais...

EA!: Como a Federação Internacional de Corfebol e os outros países tem visto seu trabalho aqui no Brasil?
Profº Marcelo:
Com grande entusiasmo, muito embora os esforços agora estejam concentrados na China... local das próximas olímpiadas... onde o Corfebol deverá ser demonstração o que em muito facilitará para o Brasil no sentido de mídia. Existem ainda dirigentes brasileiros que desconhecem meu trabalho e o Corfebol. Sou considerado o divulgador mais louco do mundo, na verdade sou mesmo! (risos) E eles gostam muito da minha forma de trabalhar me chamam de o "Entusiasta". Em 2002 na vinda dos secretários da IKF ao Brasil em conversa, mencionaram que nunca viram ninguém tão apaixonado pela modalidade em todo o mundo. Eles ainda não viram nada... (risos)
EA!: Quais são as principais oportunidades que você acreditam que ainda faltam para fazer o Corfebol se desenvolver no país?
Profº Marcelo:
Preciso de apoio do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) e também de alguma universidade que apoie o esporte, criando uma equipe Universitária e colocando o esporte como disciplina optativa na sua grade curricular. Com isso teremos profissionais ainda mais capacitados a trabalhar com o esporte.

EA!: Quais são seus ídolos no esporte?
Profº Marcelo:
Nico Broekhuysen, Ben Crun, Leon Simons, Nuno Ferro e Jorge Ramos, Sandra Vedder, Bob Die.

EA!: Qual seu sonho para o Corfebol Brasileiro daqui 10 anos e daqui 20 anos?
Profº Marcelo:
Vejamos, 10 anos: quero o Corfebol praticado em pelo menos em todo o Sudeste. Poder participar dos campeonatos mundiais de Corfebol sem ter que ficar desesperado para conseguir as viagens áereas e ter que dar a vaga de graça para os americanos.

Em 20 anos. Quero ver o Corfebol sendo praticado em todos os países sulamericanos e seremos uma potência na modalidade, seremos o primeiro país a derrotar os holandeses em uma final de mundial. Tenham certeza disso !

EA!: Como as pessoas podem obter mais informações sobre o esporte, como apoiar, como formar equipes?
Profº Marcelo: Simples!

Nosso corfeblog www.corfeblog.blogspot.com,
Na lista de discussão no portal CEV. www.cev.org.br
(cevcorfebol - listas) e alguns vídeos no youtube.com,
temos comunidades no orkut e realizo cursos, palestras e clínicas de Corfebol. tel: (21) 8819.0278 e email: corfebolbrasil@terra.com.br.

Por enquanto, não temos ainda contrato com nenhum patrocinador... mas é questão de tempo... então aguardamos propostas. O Corfebol tem tudo para dar certo no Brasil.

Na qualidade de representante do Corfebol no Brasil, agradecemos a oportunidade de ser entrevistado pelo Esporte Acontece!. A Federação Internacional será informada da grande oportunidade que nos foi concedida para falar do nosso querido esporte.

EA!: Agradecemos muito ao Professor Marcelo Soares em receber nossa equipe e vemos claramente nele a mesma gana de Charles Miller, assim como outros desbravadores do esporte nacional, ao implantar "na marra” o football no país do cricket há quase um século atrás.
Com o pouco ou nada de apoio que ele obteve até hoje, seu esporte tem se desenvolvido nos últimos anos e acreditamos que ele estará sempre em busca de novos estágios de evolução, para seus atletas com vistas em transformar o Brasil em potência mundial do esporte. E como o Professor Marcelo Soares nos ensina: Tem que querer!

Matéria do Corfebol no ESPORTE ESPETACULAR - TV GLOBO/2003, Reportagem de Tino Marcos e Edson Viana