quinta-feira, 2 de abril de 2009

DINHEIRO ESTATAL F.C. - por Gustavo Cavalheiro

A crise mundial está aí! Pra arrombar os fundilhos de Lênin (na antiga Leningrado), transformar Lula em celebridade pop no encontro do G20 e fazer de Obama, o Messias iluminado do universo.

As economias inglesa e norte americana estão intervindo como nunca no derrame de trilhões (uhuhuaaa: risada do Dr. Evil mode on) para salvar empresas da bancarrota, fazendo uma gerência de crise e uma ingerência de direitos com o propósito de salvar a cadeia de dominós justapostos e prontos para um grande espetáculo de queda.

Enquanto isso no país do futebol, o derrame de dinheiro público é feito legalmente com a forma mágica do incentivo privado da isenção de impostos estatais, que no frigir dos ovos da História é o governo deixando de cobrar por aquilo que não sabe fazer.

O ponto desta coluna de hoje está no fato de analisar com calma este oba-oba, principalmente neste tempo de crise, pois a arrecadação em baixa em nome da contrapartida social feita pelos "clubes formadores" é uma desculpa para a atuação da mão do governo que anda devagar quase parando.

De acordo com o Correio Braziliense (3/03/2009 10:01 assinado por José Cruz) 24 times de futebol profissional amealharam quase 2x mais que o COB para seus projetos. R$ 47,5 milhões foram distribuídos entre 24 clubes de futebol (nenhum do Rio de Janeiro) de setembro de 2007 a dezembro de 2008.

O que tem de errado nisso? Nada e tudo.
Nada pois está na lei e futebol também é um esporte olímpico, mas tudo pois o governo federal tornou-se expressivo financiador da nova geração de jogadores profissionais da modalidade, interferindo de maneira desleal e apoiando massivamente APENAS a rentável "indústria do futebol".

Pensemos que um atleta do clube X da série A, B ou C, utilize um CT de base financiado pelo imposto de uma empresa, que foi diretamente aplicado (logo, menos arrecadação governamental, logo uso do seu e do meu imposto para compor outras necessidades primárias do governo). Mas esse clube tem como seu core-business (negócio) um produto chamado ATLETA PROFISSIONAL, que depois de selecionado, lapidado e construído será colocado nas prateleiras dos empresários e vendido para o mercado externo da Europa ao Uzbequistão da vida!

Que maravilha... o governo ajuda o clube a semear pessoas e vender atletas com a política da isenção de imposto, enquanto um time de remo, vôlei, judô, atletismo é capengamente fechado aqui ou ali pois não tem PRODUTO FINAL DE VENDA.

Muito bom... seria ser pipoqueiro com pipocas dadas pelo governo, ser uma Gerdal com minério de ferro dado pelo governo, ser uma Suzano com lindos eucaliptos doados por Brasília a troco de.. de... nada!

Sinceramente: você acha que um clube de futebol que pega 200 crianças e cria uns 10 jogadores de futebol, vendendo-os por milhões para o exterior, precisa de dinheiro do governo pra fazer seu "negócio" girar? Ou o governo deveria ajudar aquele clube que forma o atleta e não lucra NADA quando ele chega à categoria adulta, como nos casos de TODOS os outros esportes olímpicos?

Quem merece dinheiro estatal: um time olímpico do Minas Tênis Clube ou a base dos 24 clubes de futebol?

Afinal: qual é o negócio do clube de futebol? Qual é o negócio do clube olímpico? Quem está mais próximo de ser um clube FORMADOR?

Outra coisa, o foco do time de futebol não é criar cidadão. Eles plantam, criam ou cultivam atletas profissionais. Ser um cidadão, em economês, é apenas commodity.

Olhando que até agora, foram captados R$ 132 milhões, e 60% desse total (cerca de R$ 69 milhões) serão aplicados em projetos de apenas dois estados, Rio de Janeiro e São Paulo, percebe-se muito do casuísmo dos doadores que ainda tem suas ações sociais associadas ao marketing de exposição dos clubes de futebol.

Vejamos alguns casos:

PRINCIPAIS INVESTIMENTOS

INSTITUIÇÃO - R$ *

Comitê Olímpico - 26.164.626
São Paulo F.C. - 18.562.907
Minas Tênis Clube - 12.904.832
Esporte Clube Pinheiros - 8.917.464
Hipismo - 6.663.954
Atlético-MG - 5.067.936
Confederação de Golfe - 4.234.409 (nota: aqui eu acredito que a editoria do Correio Braziliense trocou a CBG do golfe pela CBG da Ginástica)
Desporto paraolímpico - 3.257.075
América FC (MG) - 2.600.000
Conf. Desp. Universitário - 2.330.000

* Valores captados

O CT de Cotia do SPFC está estimado sob o custo de 4,5 milhões de reais, valor SUPERIOR a TODO valor captado para o supervitorioso Desporto paraolímpico. Assim devem ser os casos do CT do Galo mineiro, Ct Santista dos Meninos da Vila, novo CT do Palmeiras e etc. Não saem por menos de muitos milhões.

Quais serão as contrapartidas sociais destes projetos? ZERO

Estes projetos vão, sim, formar produtos finais de melhor qualidade, unicamente para o lucro destas empresas trajadas de calção e chuteiras, enquanto as dividas trabalhistas de INSS e impostos atrasados são abolidos com um passe de mágica, que desta vez pode ser chamado de TIMEMANIA.

Pergunto: Quanto ganham Pinheiros, Paulistano, Tietê, Minas Tênis, Tijuca Tênis Clube, Monte Líbano, Sírio, Francana, AACDs e etc com a TIMEMANIA?

Por que essa necessidade de bancar a incompetência de gestão, ou pra quê essa ingerência numa indústria produtiva e lucrativa como o futebol que não seja a de moralizar seus hábitos, ritos e costumes?

Dúvida: Se eu quiser marcar um jogo com crianças (carentes ou não) de Coita neste novo CT, o mesmo estará a disposição do povo ou será apenas para formar novos Kakás, Julios Baptististinhas pra venda?

Pra não falar que é implicância com o CT do SPFC, lembremos: A prefeitura da Cidade de São Paulo cedeu os terrenos dos CT's do SPFC e do Palmeiras no fim da década de 80 início de 90 com a contrapartida de melhorias e uso do munícipe. O SPFC por sua vez, usou todo terreno para o alojamento e campos, enquanto o Palmeiras construiu um ginásio com a desculpa de uso do cidadão. Desculpa, pois o mesmo era usado apenas nos dias de chuva pelos atletas profissionais e quase que os dois CT's foram desalojados em 3 gestões atrás. O Corinthians herdou um grande terreno no Parque Ecológico do Tietê pois o então governador do estado Fleury, corintiano, quis gerar a isonomia de condições e benesses aos clubes, mesmo que também sem nenhuma contrapartida ao povo.

Sem falar das denúncias da nova modalidade de "gestão de dinheiro" que existiria nos contratos de patrocínio em que as empresas estipulam alguns milhões de reais como cedidos às categorias de base. (vide Fiat x Palmeiras 2008 e Batavo x Corinthians 2009). Não é patrocínio, é isenção mesmo!

Tudo isso escondido na paixão clubística, na leniência da imprensa com a soberania sociocultural do futebol, no casuísmo governamental e nos papos furados como: esporte = saúde e projeto sócioesportivo tem contrapartida pois tira carentes do crime. Claro, "tudo pra inglês ver" e brasileiro bancar.

É assim que funciona... enquanto Barrack compra empresas de carros, Brown compra bancos... o governo Lula banca a linha de montagem dos jogadores de bola e não pede nada em troco.

Custa rever essa lei e ampliar a contrapartida dos projetos de futebol? Custa obrigar os clubes a manter uma infraestrutura para os desportos paraolímpicos, esportes olímpicos ou quem sabe, PELO MENOS FINGIR que parte dessa grana vai pro futebol feminino?


Ahhhh como custa... coooomo custa... e viva o Brasil!